sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A História da Loucura na visão de Michel Foucault.




Quando Foucault lança o seu olhar para a loucura, ele faz um mergulho nesse universo para entendê-lo, e a partir daí, construir um saber sobre a loucura e como ela se constituiu ao longo da história. Ele opera uma desconstrução da história e uma ordem dos saberes, a partir da qual vai trabalhar a loucura, a punição, a sexualidade, mostrando como esses saberes se constituiram histórico-culturalmente. Para ele a história não é algo contínuo, linear, mas sim, experiências. E mostra como a loucura sempre foi objeto de exclusão. Cabe a pergunta: O que é o louco? O discurso de Foucault está caracterizado na repetição sobre o significado, é a sociedade que considera o desviante do que é para ser como louco, independente do seu contexto, ou seja, tudo o que está fora dos padrões da sociedade é taxado como louco. Foucault trabalha com a loucura como objeto de pesquisa, desde o século XIII até o século XVIII, mostrando toda a sua formação social, política, econômica, e filosófica. Como a loucura produz seus discursos e como eles se formam? como cada época muda esses discursos? qual a gênese da prática de internamento e exclusão?esses são alguns questionamentos dele no livro “ A História da Loucura na Idade Clássica”. Nesse livro, ele não faz uma historicização da psiquiatria, ele fala da experiência da loucura em si, como essa experiência se constituiu em nossa cultura.



A história da filosofia antes de Foucault era pensada de uma forma Hegeliana, linear, ele quebra essa visão da história da filosofia, pois está sempre trabalhando no nível da história, fazendo da história o solo epistêmico do seu pensar, com isso, a sua Arqueologia do saber consegue quebrar essa visão linear, pois ele nunca pensou em termos de unidade, ele pensa em termos de fragmentos, isso é fundamental em seu pensamento. Na sua Arqueologia com as obras: História da loucura, Nascimento da Clínica, As Palavras e as Coisas e Arqueologia do Saber, ele constrói um fio condutor que é a relação saber-poder, onde essa relação gera conhecimento. A filosofia de Foucault não é uma síntese, porque é uma produção da diferença, ele trabalha com a idéia de deslocamentos, deslocamentos dos saberes como evolução. A concepção histórica de Foucault é formada por três eixos, para ele a história é descontínua; não linear, ou seja, fundada na experimentação; e problematização, a filosofia sempre tem que dar conta de um problema. Assim ele aborda a história das prisões, da sexualidade, da loucura como experiências formadoras desses domínios. Ele transforma a loucura em objeto de história das representações da loucura num contexto histórico-social-político, levando em consideração a importância cronológica dessa construção de saber.



A forma como Foucault trabalha a representação da loucura se dá pela construção desse saber e pela percepção do que é a experiência da loucura, remetendo-se a cada época e construindo uma ordem dos saberes, das práticas sociais, e uma análise do discurso, entendendo e analisando os discursos formados pela experiência em cada época histórica diferente. Alguns questionamentos fundamentais dele nessa pesquisa são: Como a loucura vai se configurar como uma representação na Europa? Qual a gênese da prática de internamento e exclusão que são inerentes à loucura? Qual a percepção da loucura para o louco? Com esses e outros questionamentos ele vai traçando uma configuração histórica da experiência da loucura, que começa no século XIII chegando ao século XIX mostrando os diferentes momentos de como se deu essa experiência ao longo dos séculos. Do século XII ao XIV o grande mal foi a lepra, os leprosários ficaram lotados, depois que a lepra desaparece fica um vazio simbólico, e a loucura é que vai preencher esse vazio simbólico, passando a ser o grande medo, pois a loucura era algo fora do controle, não tinha tratamento nem cura e era imponderável, a loucura era excluída da sociedade. No século XVII aparece as doenças venéreas, mas estas eram tratáveis, a lepra era só física, mas as doenças venéreas e a loucura assumiram também o caráter moral. Só no século XIX é que o louco passa a ser objeto de pesquisa e entra em cena a psiquiatria, a psicologia e a psicanálise.



Foucault descreve o quadro histórico da loucura em cada período, a saber, no fim da Idade Média, séc XIII a loucura era vista como castigo de Deus ou uma forma de redenção, está na esfera do sagrado, o significado cósmico na Idade Média passa a ter um significado imponderável na Renascença, a natureza humana extravaza os seus limites, a figura do louco era objeto poético, dividido entre os instintos e os transbordamentos desses instintos, ou seja, no Renascimento, século XIV e XV é a visão trágica da loucura na literatura e poesia que vigora; na Idade Clássica, século XVI – XVII houve uma reforma do entendimento moral do louco, desmistifica-se a loucura, ela adquiri um significado social e moral, o louco é relacionado à razão. A experiência trágica está entre o cósmico e o trágico, são sentimentos racionalizados descrevendo a ambiguidade do ser humano, a loucura racionalizada entendida na esfera da razão, mas, não entendida na desrazão, não perde o seu caráter trágico. Na experiência crítica a loucura está fora do âmbito da razão, é Descartes que fala do argumento do sonho nas Meditações, mostrando haver uma experiência cósmica da loucura versus experiência crítica da loucura. A loucura como consciência crítica quebra a visão da loucura como transcendental, no século XVI a loucura não é mais vista como transcendental, mística, mas sim uma experiência crítica-racional, o louco está fora do limite da razão. No século XV a loucura perdia seu caráter cósmico, divino, e passa a ser objeto de preocupação social, continuam as práticas de internamento e exclusão, todas as pessoas que estavam fora dos padrões de comportamento social eram consideradas loucas, a loucura não tinha ainda o estatuto de patologia, a loucura é tudo que não se encaixava nos padrões, tudo o que era indomável, não se sabia exatamente o que era a loucura, ela só passa a ter estatuto científico no século XIX. O deslocamento da percepção da loucura do Renascimento para a Idade Clássica se dá como a loucura sendo o outro da razão – se encontra no campo da racionalidade, ela é a desrazão. A loucura é excluída de qualquer racionalidade, na relação da loucura com a razão há a desmistificação da loucura no sentido alegórico e poético. A loucura precisa da razão para dizer que não tem razão, excluindo a razão da loucura, aprisiona-se a loucura dentro da razão, é esse o deslocamento da percepção da experiência da loucura. Agora o estatuto da loucura é a razão, esse deslocamento na percepção no século XVII vai evidenciar o motivo da grande internação. A grande internação tem uma característica moral e social, moral no sentido de punição, e social no sentido de controle. Agora a percepção social do internamento é a resolução de problemas, não mais o caráter assistencialista da Igreja na Idade Média, e o caráter produtivista econômico da renascença, o internamento é uma função social produzindo uma segregação social e produzindo alienados, o louco passa a ser um alienado, aquele que não tem capacidade de decidir nada na sociedade, a segregação produziu o ser associal.



Lou-cura significa “não cura”, um significado simbólico do imponderável. Antes, a loucura era uma experiência trágica, depois passa a ser absorvida no parâmetro da razão. Descartes relega a loucura ao estatuto da Desrazão – longe de qualquer juízo falso ou verdadeiro, a partir do momento que a loucura passa a ser uma experiência crítica se coloca fora do lugar da razão, ela é o outro da razão – a desrazão. Se a loucura tem o mesmo estatuto da razão, ela passa a ser o grande medo da desordem, e a solução é a grande internação na França do século XVII. A loucura a partir de Descartes passa a ter um estatuto moral, passa a ser patológico também, passa a ser vista como desatino, ou seja, fora da razão. A desrazão da loucura está entre o significado ético e o signifcado moral, o estatuto indeterminado do louco era tudo o que extrapolasse a ordem da razão, o que fugisse dos padrões, e o internamento dos alienados é a estrutura mais visível na experiência clássica da loucura. Na Idade Média o louco era assim por vontade divina, na modernidade, a loucura não é por vontade divina, a loucura já tem um estatuto de razão, passa a ter o significado moral, na modernidade, século XIX até hoje, a loucura passa a ser objeto de análise, começa a entrar para a esfera da medicina e da ciência como objeto de estudo e pesquisa. Os significados e as representações mudam, mas as práticas continuam as mesmas, internamento e exclusão. Essas práticas já estão presentes na origem da história da loucura, desde o século XIII, seja nos mosteiros, nas Naus, nas casas de caridade, etc. Na Idade Média a loucura ainda tinha um sentido de lugar, um significado cosmológico ligado ao sagrado, na Renascença com a Nau dos Loucos, já não existe mais o lugar da loucura, o não-lugar físico que a loucura adquire como significado é o caráter de exclusão, propriedade e significação dessa propriedade, privação de lugar e espaço para o indivíduo, o não-lugar do louco cria o lugar do internamento. Mas mesmo com as diferenças de representações da loucura nesses diferentes períodos, uma instância não muda, que são as práticas relacionadas à loucura. As práticas de intervenção sofre alguns deslocamentos de significados, por exemplo, no século XVII a loucura passa a ter um sentido moral, a loucura como transbordamento do não dito, já no século XVIII deixa de ter um aspecto moral e passa a ser de cunho médico. O hospício moderno surge com o advento da internação do Marquês de Sade, onde o diagnóstico não é de loucura, Sade não está privado de razão, mas sim sofre de sodomia, por isso, o lugar dele é na prisão e não no hospício, esse acontecimento marca a nova significação da loucura na modernidade.



Na Idade Clássica se começa o início do significado médico, começa a se perceber que alguns loucos podia tratar e acompanhar, começa os tratamentos médicos e a supervisão era no sentido de manter os loucos fora dos focos de epidemias. O significado médico e moral vai surgir na mesma época e ele vai mostrar quais os elementos que levaram as práticas de internação como instituição, com a criação do hospital geral na França.



A preocupação de Foucault é entender como é que o louco hoje é um objeto jogado nos hospícios. Por isso ele faz esse recuo na história voltando ao medievo até a contemporaneideda para poder entender a questão da loucura e as práticas da loucura, que sempre foram internamento e exclusão. Ele constrói uma Arqueologia do Saber, mostrando como se deu a produção dos discurssos da loucura, o foco da pesquisa de foucault é o da experiência da loucura em si. No século XVII há duas práticas fundamentais que são as práticas sociais e as práticas jurídicas, nessas duas formas a loucura vai se configurar como a entendemos hoje. Foucault mostra que a ciência médica evoluiu de um contexto de evoluções históricas, de configurações sociais. Ele mostra que no século XVII o estatuto da loucura existia nessas duas formas e que ainda não existia uma ciência médica para cuidar do louco. Foucault vai descrever no livro “ A História da Loucura na Idade Clássica” toda a evolução da loucura, todas as experiências da loucura e mostra que o século XVII é a chave fundamental nessa história, porque é nesse século que o louco perde o estatuto de humanidade e ganha o estatuto da razão, o outro da razão, e como a partir das práticas se tem os saberes. Ele vai examinar o século XVII a partir da materialidade, ou seja, as instituições, os prédios, os documentos que falam dos internamentos e da exclusão, e como essas duas formas , as práticas sociais e jurídicas vão conviver no âmbito das intituições.



O deslocamento na percepção da loucura no século XVII no âmbito da discussão filosófica, passa a ser vista fora da razão, a desrazão, se há um deslocamento na percepção significa que a prática mudou, na análise de Foucault é na prática que se tem a percepção, ele não separa percepção de prática, tudo está vinculado. A percepção crítica do louco na Idade Clássica é a grande ruptura, ou seja, a loucura passa a ter o mesmo estatuto da razão. A loucura na Idade Moderna passa a ser objeto de estudo científico, a loucura como patologia só acontece no século XIX, o louco passa a ser um objeto de análise da psiquiatria, mas até chegar a esse ponto de objeto de estudo, houve todo um deslocamento de significado da loucura ao longo da história. O louco perde o estatuto de gente, de humanidade no século XIX para virar um objeto de pesquisa.



Há uma desmistificação da figura do louco, o louco não é mais o possuído pelas musas na visão poética, nem o homem que expia os pecados, o louco é todo aquele que não se encaixa nos parâmetros da razão da sociedade burguesa do século XVII. A psiquiatria só surge no século XIX com Charcot e Pinel, antes, os médicos que visitavam os hospitais tinham o objetivo de controlar as pestes e doenças que aconteciam dentro das casas de internação, mas, não há ainda a questão da loucura como objeto de estudo da medicina. No século XVIII a medicina está em pleno desenvolvimento, Foucault vai mostrar que há uma relação entre significado moral e sentido terapêutico, mas o sentido terapêutico só se instaura do século XVIII para o século XIX. A briga de Foucault com a medicina, é essa questão do sentido terapêutico. A medicina na Idade Clássica está ligada à visão moral, o bem é sempre a ordem vigente, o mal é tudo que contesta essa ordem, o médico analisa a moral boa e a moral ruim, ele examina não os sintomas, mas a vida moral, e se estiver fora dos padrões é excluido, alienado. Foucault faz uma genealogia da segregação e da alienação, ele vai tratar de como esse padrão normativo está presente nas práticas de internamento, já que com a medicina, a internação e a ordem social vão estar funcionando dentro desses padrões normativos da época. O caráter terapêutico no século XVII não é no sentido de tratamento, mas sim no sentido de correção, penalização. O médico é aquele que diagnostica se pode ou não viver em sociedade, o médico com o uso do estatuto jurídico, ele analisa o indivíduo pelos aspectos morais e não pela questão da saúde.O sentido terapêutico adquiri o sentido de impureza, impureza moral ou transgressão normativa. Foucault mostra como funcionava o internamento como função moral através das práticas burguesas e como esse terreno moral sustenta a internação. O padrão normativo do internamento passa a ter como linha divisória do desatino a sexualidade, por isso, Foucault vai falar da história da sexualidade, porque a sexualidade está na origem do pensamento social ocidental. A sociedade burguesa controla a questão da sexualidade pela tradição, a questão moral e religiosa vai manter esse controle.



Para Foucault o comportamento humano é construído, e não uma questão divina e imutável, tudo é uma construção histórica e cultural. Qual a função social do internamento na correção? É a reforma social do indivíduo, corrigir a conduta e reformar a moralidade do indivíduo, por isso, a correção é punida com o internamento, para a reforma do indivíduo.



Ele sustenta que a loucura está na ordem da norma social, não existe uma loucura pré-existente, existe alguns comportamentos desviados, mas a loucura é uma construção social, essa é a tese dele, por isso, Foucault é tão hostilizado por psiquiatras, psicólogos e psicanalistas, por ele desmistificar a psiquiatria como a ciência da loucura, ele mostra como a loucura passou a ser objeto de análise e pesquisa só a partir do século XIX. A briga de Foucault com a psicanálise é que a psicanálise fala de uma estrutura psíquica pré-social e foucault diz que o social é anterior a estrutura psíquica, ele vai de encontro a Freud. Loucura é desatino da razão, Foucault sustenta que a sociedade precede a essa estruturação psíquica, é a cultura que forma e informa (molda) o indivíduo, por isso, ele critica freud e a psicanálise.



Essas práticas de domínio ético da insanidade vão produzir normas e descrevem um domínio ético do internamento. A institucionalização do domínio ético cria o domínio da insanidade. A loucura nos séculos XVII e XVIII está submetida à razão, é vista como moralidade , é uso correto ou incorreto da razão. A loucura é assujeitada à razão. No século XIX a loucura já não é mais moral, a loucura é no sentido clínico, médico. Foucault mostra que no séc XIX houve o resgate do estatuto individual da loucura como objeto de análise, objeto de estudo da ciência, como é que funciona a loucura no ser humano??? A psiquiatria, a psicologia e a psicanálise querem entender os mecanismos internos da loucura, o que é a loucura? Como ela acontece no indivíduo? A partir daí passa a ser estudo da medicina e objeto de pesquisa de outras ciências.



Afinal, o que foi a experiência Clássica da loucura? Um gesto de segregação no século XVII que produziu o alienado, o internamento e a exclusão, o domínio ético da loucura. A experiência Clássica da loucura não reside no fato do internamento, pois este já existia desde o século XIII, reside na criação da figura do alienado, reside no fato de que a loucura perdeu seu estatuto de igualdade frente à razão e passou a ser subsumido e submetido à razão. Com o desatino se tem algo diferente da loucura. A loucura é algo que nos padrões morais não se encaixa na sociedade burguesa, então vira desatino. A razão é estabelecida dentro do domínio moral da sociedade burguesa. Os três elementos básicos da experiência Clássica da loucura são: Alienação da razão, distanciamento da loucura e do louco pelo internamento, e sujeição como forma de controle. A experiência moral do desatino na Idade Clássica é o solo, a base para o entendimento da ciência, e só a partir do distanciamento e do encarceramento da loucura nos muros da razão, para permitir começar a entender e estudá-la como objeto de pesquisa científica. Para Foucault só existe o louco, a figura da loucura é criada no século XVII pela norma social. A insanidade no século XVII acaba ocupando o domínio moral, a partir desse domínio vai abrir as portas para os estudos da psicologia – o que se passa na psiquê, na alma humana; da psiquiatria – do corpo doente, a loucura como patologia; e pela psicanálise – uma arqueologia do inconsciente.



Os estudos históricos de Foucault nessa primeira fase nos anos 60 e 70 giraram em torno de três coisas: a história da loucura, a ciência médico-clínica, e a história da violência nas prisões, e os três estão em origem no século XVII, para ele a gênese da sociedade contemporânea está embasada no século XVII como gênese de uma sociedade disciplinar e o século XX vai ser uma sociedade de controle.



Essa questão que foi sinalizada ao longo do texto sobre a loucura ser uma formação social como Foucault sustenta ou ser uma questão psíquica pré-social como Freud sustenta, que é o foco de crítica foucaultiana a Freud, será material de estudo, análise e aprofundamento num próximo trabalho, visto que neste o objetivo primordial era mostrar a visão de Foucault sobre a loucura.

JANAINA ISMENIA DE MELO.
( tela "O grito" de Munch - retirada da internet).

Um comentário:

  1. Excelente texto, usei com base par um trabalho da faculdade em cima do filme: Bicho de Sete Cabeças. Realmente Michel Foucault vai além em suas percepções, já havia lido Vigiar e Punir e fiquei maravilhado com as linhas ali descritas, mas contribuir de forma memorável para estudos da psicologia. Realmente fascinante!!!

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